Um bocadinho mais: o sujeito e a tela
Um bocadinho mais: o sujeito e a tela
Fábio Sanchez
A uso de aparatos com tela, integrados à mão compostos de vidro e elementos eletrônicos e óticos, se intensifica a ponto de alguns pensadores considerarem o ser humano atual uma espécie de ciborgue lowtec (CASE, 2012), ou verem a evolução tecnológica como um prolongamento da própria evolução biológica do homem (SFEZ, pg. 291). O uso de algumas telas, como a do telefone celular, já justifica a criação de nova ontologia e de debates acalorados no ambiente filosófico, em busca por exemplo do conceito contemporâneo de verdade (FERRARIS, 2015). A máquina integra e prolonga o corpo, apoia ou rechaça a tomada de decisões e confere virtudes ao dono, conforme seu tamanho e outros critérios que definam poder.
A relação com esse aparato técnico tem um propósito central: comunicar-se com outros, expor-se a um certo olhar e ver o que os outros expõem, característica que também nos dá a impressão de estarmos falando de um ambiente contemporâneo.
Nesse contexto, a provocação do grupo de pesquisa Sujeito <> Contemporâneo, do Fórum do Campo Lacaniano de São Paulo, para que se foque a relação da psicanálise com os dias correntes, encontra obrigatoriamente a relação do sujeito com um corpo ausente, por meio da tela. Pensamento que logo chama outro para junto de si: haveria uma clínica para a técnica, ou para seu mais recente avatar, a tecnologia?
Há muitas formas de abordar essa relação no conteúdo lacaniano. Escolho uma abordagem que seleciona e exclui, mas que acredito pode ajudar a pensar paradigmas da relação homem/técnica.
Está claro que a tela afeta o estatuto do olhar do outro, põe-se em algum lugar nesse circuito, e com isso afeta a relação entre público e privado, coletivo e individual. Ela substitui o olhar do outro quando oferece observação sobre a produção textual, de imagens, a interação do sujeito com a escolha de ícones (emojis, smileys, emoticons etc). É um proto-olhar que curte, comenta e manipula algoritmos interessadíssimos em observar as preferências do sujeito. Porém, submete-se ao tempo imposto pelo sujeito, que liga e desliga, responde quando quer, autoriza ou não a interpelação. Portanto trata-se de um olhar menos poderoso do que o do outro ausente. Este faz-se apenas representar.
Mas também é um olhar editado pelo sujeito, que escolhe sua cor, tipologia, enquadramento, regras de acesso, sons acoplados, volume, design etc. Não deixa de produzir uma imagem especular do eu. A tela representa portanto, paradoxalmente, uma ausência que também é um significante constitutivo.
Temporalidade da tela
É importante notar que esse olhar da tela, presente/ausente, manipulado pelo sujeito, é destituído do poder de causar vergonha no sentido apontado por Lacan em “O avesso da psicanálise”, ou seja, não é esse aparato, em si, que causa a principal característica da vergonha lacaniana, “a angústia de se ser excluído” (MIJOLLA, pg. 1.949). Ela não excluirá o sujeito e não retirará seu amor ou interesse pelo sujeito. Apesar disso, todas as variações entre o que se mostra e o que se esconde, suas muitas possibilidades de escolha e seleção, estão mediadas pela temporalidade peculiar da tela, onipresente, constante, coadjuvante em inúmeras atividades cotidianas, ou simplesmente silenciada quando assim o deseja o sujeito.
A professora da UFRJ focada na interação homem/tecnologia Fernanda Bruno relata em sequência histórica uma sucessão de deslocamentos no olhar público sobre o sujeito, como a mudança que houve na modernidade com a transformação do olhar republicano a que se referiu Rousseau (uma exposição pública virtuosa, que julgaria as “manobras obscuras do vício” dos indivíduos), para o olhar superegóico, repressor e que encarna a própria lei, ou ainda o olhar repressivo de Foucault. São deslocamentos espetaculares. Este olhar público, por sua vez, na pós-modernidade da tecnologia contemporânea, deslocou-se ainda mais para um ambiente não mais necessariamente regido pelo superego, mas sim pelo ideal de eu. “Passamos do Édipo ao Narciso?”, pergunta retoricamente Bruno (BRUNO, 2013, pg. 79).
Um exemplo desse deslocamento seria o que vai da interdição para a performance, ou seja, a mudança do olhar que impõe culpa e conflito para aquele que exige sucesso pessoal, superação de limites e autorrealização, como aconteceu não só no mundo corporativo e editorial, com a proliferação de manuais de autoajuda e autoestima, mas na publicidade, no jornalismo, nas relações pessoais etc.
O padrão normativo das identidades contemporâneas parece abandonar os modelos institucionais que se apegam à norma (o bom aluno, o bom trabalhador etc) em favor dos sujeitos inovadores, intrépidos, desafiadores, com muitos amigos nas redes sociais, portadores de telas.
Essa análise confirma o “esquema óptico” desenvolvido por Lacan em seu primeiro seminário, “Os escritos técnicos de Freud”, no qual distingue o “eu ideal” (identificação com uma função) do “ideal de eu” (identificação com uma imagem).
Seria esse olhar, regido pelo ideal de eu, que surge da tela, um local privilegiado para exposição da vida privada. É este olhar que medeia as relações a ponto de se tornar determinante e interferir com autoridade executiva nas relações humanas mais simples. É concedido à tela poder cada vez mais amplo, porém com uma inscrição diferente do olhar superegóico descrito por Freud.
Note-se, por exemplo, as telas que são dotadas de detecção facial, com ordem para controlar situações inconvenientes. As câmeras fotográficas digitais Sony DSC-T70 e DSC-T200, por exemplo, só fotografam quem estiver sorrindo (o que também é emblemático do superego focado no gozo, tese de Zizek e outros). Ou ainda a última versão do iPhone, o X, que tem a opção de só ligar diante do rosto do dono.
Vamos ao que diz Lacan em Os escritos técnicos de Freud: “O IchIdeal, o ideal do eu, é o outro como falante, o outro na medida em que mantém comigo uma relação simbólica, sublimada, a qual, em nosso manejo dinâmico, é ao mesmo tempo igual e diferente da libido imaginária”.
A cena recorrente da família à mesa, ou dos amigos em roda, entretidos cada um com sua tela em vez de dialogarem, pode convocar a ideia lacaniana de pulsão escópica, que nunca cessa, relacionada ao que Freud chamou de Schaulust, “que significa ‘prazer de olhar’, no duplo sentido de ver e de ser visto” (MIJOLLA, pg. 589), e que muitos traduzem como escopoflia.
Para cantar essa toada é necessário chamar ao palco a dupla inseparável desejo e gozo. Mas sem perder de vista a característica já indicada neste texto da temporalidade muito peculiar da tela, que interpela alucinadamente mas é destituída do poder de causar vergonha porque apenas representa os outros e por ceder espaço generoso aos desígnios do sujeito, que pode pelo menos editar sua interpelação. Assim que se encaixam essas peças, surge sobre a mesa o objeto a. Ou talvez de um enquadramento específico dele.
A pulsão que insiste “é o que Lacan chama de miúdos objetos pequeno a, o que pulula na sociedade para causar nosso desejo e tamponar a falta de gozo, mas apenas por um instante, pois a repetição não se detém. Tudo o que nos é permitido gozar, o é por pedacinhos. É isto que Lacan chama - com uma expressão que capta bem o que se trata - de ‘bocadinho’ do gozo. Vemos nosso mundo cultural se inundar dos substitutos do gozo que são os nadicas de nada. São esses bocadinhos do gozo que conferem seu estilo próprio ao nosso modo de vida e ao nosso modo-de-gozar” (MILLER, pg. 36).
Mas no caso da tela o que é esse gozo? E como o uso gozoso da tela levaria para perto da fantasia do sujeito? É Antonio Quinet que descreve uma certa “cortina da castração do outro”, que me parece explicar essas questões, embora Quinet se refira a um conceito, e não ao aparato da tela. Esta “cortina” cria um véu de realidade para o sujeito onde a falta do outro será escondida. Quinet a representa na figura ao lado.
A cortina se posiciona entre o sujeito e o objeto, ocultando este e seu vazio, mas serve para que nela o sujeito projete sua fantasia, sua “encenação no psiquismo da satisfação de um desejo imperioso que não pode mais ser saciado na realidade” (NASIO, 2009).
Poderiam ser sintomas de uma nova subjetividade o fenômeno recente das fake news, onde a novidade não é a interpelação, mas o surgimento do interpelador equipado; ou a ampliação do desejo de ser visto por bem ou por mal (a ausência do olhar do outro relaxando o superego), ou a vigilância pessoal uns dos outros ampliada pela tecnologia, ou a incorporação à rotina de um interlocutor eletrônico passivo/ativo? Se o palco onde se encena o psiquismo está mudando rapidamente, estaria mudando também a forma de encená-lo?
Na definição clássica de fantasia, uma realidade psíquica criada pelo sujeito para realizar desejos que o recalque não permite que venham à tona, cabe pensar que nessa relação com a tela há tipos diferentes de gozo. Se há o gozo como pequeno a da pulsão, e então será registrado nas categorias clássicas (anal, oral etc, ou nas lacanianas diversas); há também o gozo que se refere ao mais-gozar, o que preenche sem nunca preencher exatamente, sintonizado com outros pensadores da sociedade moderna capitalista como Bauman, que a denominou “sociedade confessional”.
A questão é que agora a fantasia faz-se sobre uma suposição de outro, que não olhará diretamente seus olhos. A fantasia está sujeita a um aparato comercial, como nunca esteve. O vínculo do mais-gozar com o capitalismo feito por Lacan em mais de um texto remete ao termo marxista mais-valia, inspirador do neologismo. É este também o ambiente da tela, não só o do aparato, vinculado a emblemas técnicos de poder (tamanho, definição, sensibilidade ao toque, reconhecimento facial, mutação em lanterna ou espelho etc) mas também seu conteúdo (como se percebe pelos algoritmos do Google, por exemplo).
E aqui cabe, por deslizamento e por ter atingido o limite de espaço determinado para este trabalho, apenas considerar que a tela, por ser novidadeira em sua temporalidade e por promover uma mediação na relação com o outro, candidata-se a desafiar “a incompatibilidade entre o escópico da pulsão, em que o sujeito é visto, e o especular do eu corporal, que vê” (QUINET, 2002).
Trata-se talvez, a tela, do que a contemporaneidade oferece de mais próximo a um gozo plasmado ao seu próprio, rápido e inevitável renascer, como sempre idêntico a si próprio, mas que oferece a novidade da plástica e da maleabilidade e de um tempo sob demanda, capazes de se fazer imaginar uma eventual vida psíquica, se não ciborgue, dependente, interativa e referente à tecnologia.
A clínica e a pesquisa psicanalítica, acredito, devem considerar os efeitos dessa temporalidade diversa da tela, à qual o sujeito contemporâneo já está integrado.
Referências:
BRUNO, Fernanda. Máquinas de ver, modos de ser – vigilância, tecnologia e subjetividade. Editora Meridional, Porto Alegre, 2013.
CASE, Amber. Entrevista: Amber Case. Amber Case é o Sócrates do mundo digital. Entrevista ao site Vice, visualizada em https://www.vice.com/pt_br/article/pgepxm/amber-case . 2012.
ECO, Umberto. Pape Satàn Aleppe, crônicas de uma sociedade líquida. Editora Record, 2017.
DIAS, Cristiane. O amor na era do virtual. In Discurso e Sujeito, trama de significantes. Lauro José Siqueira Baldini e Kucília Maria Abrahão (org). EdUFSCar, 2014.
FERRARIS, Maurizio. Where Are You? An Ontology of the Cell Phone. Fordham University Press, 2014.
MIJOLLA, Alain de. Dicionário Internacional da Psicanálise. Imago. 2005.
MILLER, Jacques-Alain. Os seis paradigmas do gozo. Opção Lacaniana online, nova série, , Ano 3, Número 7, março de 2012. Visualizado em http://opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_7/Os_seis_paradigmas_do_gozo.pdf
NASIO, Juan David. A Fantasia. Jorge Zahar, 2009
QUINET, Antonio. Um Olhar a Mais: Ver e ser visto na psicanálise. Zahar, 2002.
SFEZ, Lucien. Técnica e Ideologia – Uma questão de poder. Instituto Piaget, Lisboa, 2002.