Estimulada por Carl Gustav Jung e Melanie Klein como um dispositivo para o tratamento psíquico, pensada por Freud e Lacan como uma sublimação ao sofrimento e por Lacan como recurso para um certo equilíbrio entre os registros que estruturam a experiência humana e o psiquismo, a arte sempre foi um canal, consciente ou não, para a conexão e a gestão dos afetos.
Essa aproximação começou a ganhar formas e técnicas cada vez mais estruturadas como arteterapia na primeira metade do século passado, apoiada na psicanálise, por meio de cuidadoras como a americana Margaret Naumburg e a austriaca Edith Kramer; e ampliada pela ação de artistas junto a hospitais como as do britânico Adrian Hill.
No Brasil, realizada pioneiramente pelos psiquiatras Nise da Silveira, junguiana, no Rio de Janeiro; e Osório César, freudiano, em São Paulo, e logo acatada por diversas linhas do pensamento psi em todo o país, a arteterapia vem se estabelecendo um instrumento eficaz como tratamento em si e como apoio às clínicas de psiquiatras, neurologistas e psicanalistas.
Há cada vez mais ensaios clínicos, revisões sistemáticas e metanálises que indicam efeitos positivos da arteterapia sobre diferentes aspectos da saúde, especialmente na saúde mental. Pesquisas recentíssimas tem investigado por exemplo, os resultados surpreendentes obtidos no tratamento da depressão (uma delas aqui). Outros distúrbios, como ansiedade e comunicação deficitária, também estão crescendo no interesse dos pesquisadores, que vem constatando sucesso no tratamento (ver aqui).
Num ateliê terapêutico, o paciente será convidado a se expressar de modo não necessariamente verbal, por meio de técnicas que se baseiam nos dispositivos do trabalho artístico. Pintura, desenho, colagem, teatro, literatura, texturas, cerâmica, música, costura e muitas outras técnicas são utilizadas como canais nos quais o inconsciente busca novos caminhos para realizar-se. E encontrar novas formas de o sujeito habitar o espaço criando.
No encontro com o que o paciente produz, na forma como ele habita sua produção, ele experimenta o desafio do novo, pode localizar afetos que não tinha percebido, mas que apontam caminhos para saber de si. Esse empreendimento íntimo e revelador é rico em efeitos. As formas escolhidas, as cores, o tempo aplicado, a combinação de elementos plásticos e estéticos, a costura cheia de nós, a colagem de uma figura que não gostou, o que se queria fazer mas saiu outra coisa, essa forma de rosto ou essa perna a mais que apareceu… tudo contribui, junto com a fala do sujeito sobre sua produção, para revelar algo que está ali pronto para comunicar algo.
Arteterapeuta formado pela Pós-Graduação da Universidade Paulista, trabalho com a técnica no meu ateliê terapêutico e em centros de referência em cuidados como o Centro de Apoio ao Deficiente Audiovisual (Cadevi) e o Instituto Casa do Todos. Em minha defesa para obtenção do título de arteterapeuta, estudei as possibilidades de aplicação das técnicas da arteterapia em espaços abertos como praças, parques e áreas verbes, praticando sessões com grupos em dois parques públicos de São Paulo, o Parque Augusta e o Parque Cemucam (situado em Cotia, na Grande São Paulo), no qual eu era conselheiro.
Muito associada à psicologia analítica de Jung e à gestalt de Fritz Perls, a arteterapia também encontra vínculos férteis na psicanálise desde muito precocemente. Freud acreditava que "a espacialidade" é uma extensão do aparelho psíquico, e nisso é aprofundado por Lacan, para quem o espaço em que se produz "parece fazer parte do inconsciente". Minha formação e minha experiência na psicanálise de Freud e Lacan, dois pensadores interessados na arte e no fazer artístico, confirma isso e contribui para aprofundar e dar uma dimensão pessoal ao trabalho com os dispositivos da arteterapia.