FÁBIO SANCHEZPsicanalista

Oferecer a contingência

Oferecer a contingência

(Fábio Sanchez - cartel Psicanálise e Política)

Integrantes: Ivan Estevão, Luiz Durante, Pedro Vannucchi, Eduardo Guimarães.

O surgimento do cartel Psicanálise e Política se deu num momento de demandas bem específicas: a ascensão do radicalismo de direita ao poder institucional. A proposta de estudar dois filósofos lacanianos de esquerda que pareciam ecoar essa questão, o maoísta Alain Badiou e o hegeliano Slavoj Zizek, inscreveu o cartel numa certa filiação, situamos a psicanálise no lugar da circulação da fala, do imprevisto, da contingência, no lado oposto ao da coerção exigida pelo equilíbrio social, no contexto em que o sujeito submete-se a um discurso e se aliena ao desejo do Outro na busca de pertencimento ao laço social. Entender o movimento que o país fez era uma demanda.

Também fez isso a Escola de Frankfurt, inconformada não só com a eleição de Hitler para chanceler como com a rejeição do socialismo pelo povo alemão. Uma costura pouco novidadeira, portanto, mas atrelada a fatos que se repetem. Vimos, durante o 19º Encontro Nacional dos Fóruns do Campo Lacaniano (dedicado à política), Antonio Quinet defender o uso das “armas da psicanálise”; e dois anos depois, no 21º Encontro, Ana Laura Prates levantar questão sobre o que teria a psicanálise em “ferramentas para a gente tentar contribuir”.

Ela denunciou, numa mesa que discutia política, um certo “vácuo” nos diagnósticos sociais feitos pelos psicanalistas, muito sujeitos à falha (não menos do que os diagnósticos feitos nos consultórios) e apontou análises superficiais que vê sendo feitas a respeito do eleitor da direita extremista (que, se não for menosprezado, poderia ser visto como portador de um modo equivocado de se rebelar contra o discurso capitalista) e pede cuidado para que a psicanálise não repita o discurso da desvalorização do que é popular.

Esta senda, abrindo caminho para propor ferramentas que iluminem um cipoal de epistemologias, fala à proposta desse cartel, ou pelo menos à que eu tenho desde o início. Ana Laura cita como eventuais ferramentas a “teoria do ato” e em começarmos a “operar a questão da contingência como uma saída”. Outros, como Fábio Bispo, descrevem uma certa “ética da contingência” na implicação da psicanálise no laço social, ou seja, uma “condição fundamental para que uma ética que leve em conta a singularidade do desejo seja sustentada nos espaços coletivos” (BISPO, 2012).

Ver a psicanálise implicada no laço social como uma contingência (pois nem sempre se escreve, pode permanecer o tempo todo atópica), como uma aposta, mantendo essa posição ainda que corra o risco de pender para um discurso burocrático ou institucionalizado, quando ela é ofertada no posto de saúde, na escola, nas medidas socioeducativas. Estamos falando da relação “singular” de inclusão e pertença proposta por Badiou, que abriga o discurso do psicanalista. Ele “pertence” e “se apresenta”, mas não está incluído ou representado (nem tem protocolos nos catálogos médicos). Citemos, para situar o contexto e o que não é psicanálise, que as outras duas relações de inclusão e pertença são a “normal”, que também pertence e se apresenta, mas que além disso está incluída ou representada (como o discurso do mestre ou universitário, com eco nas instituições); e, terceira, a “excrescência”, que não pertence ou não se apresenta, porém está incluída ou representada (um funcionário fantasma de uma repartição pública ou famintos excluídos do bolsa-família mas conhecidos das estatísticas oficiais).

Não se prescreve a psicanálise como um protocolo de serviço no laço social, sob pena de subjugá-la ao discurso do mestre, suas escolas não são credenciadas pelo Ministério da Educação, mas assim mesmo, sem pertencer a nenhum protocolo formal, ela pode acontecer como experiência original, no qual “nos sintomas sociais, é a dimensão da fala que possibilitará com que, por meio do dizer, sejam afrouxados os nós que prendem o sujeito a uma forma rígida e localizada de laço social” (BISPO, 2012).

Também acompanha Ana Laura, na sua referência à teoria do ato, Rithée Cevasco (CEVASCO, 2014, pg. 123 e 124) que menciona a questão como parte de uma “lógica coletiva” na teoria lacaniana. É quando Lacan pensa as operações de alienação e separação não mais com o viés da formação do sujeito, mas na estrutura do ato analítico, lançando mão de modelos matemáticos de grupo, como o grupo de Klein. Lacan pensa a operação matemática não involutiva, ou seja, na qual após se alcançar um "produto", é impossível retornar ao ponto de partida. Assim como, numa análise psicanalítica, seus efeitos finais não podem ser dissolvidos depois que ela cessa.

Um ato, em termos lacanianos e também para Badiou e Zizek, refere-se a um momento ou movimento subjetivo que excede as restrições do simbólico e do imaginário, não pode ser contido nem contabilizado em termos de uma ordem ou conhecimento existente, nem pode ser explicado por uma ideia existente do que o sujeito seria ou como se encaixa no mundo. Também une Lacan, Badiou e Zizek a ideia de que o real não se refere à identificação de um fato, mas requer o ato de afirmação, sinalizando que os diferentes registros (real, simbólico e imaginário) são implicados entre si. Neste sentido, o nó borromeano se apresenta como um operador ou um modelo desse vínculo que estudamos, e uma chave para pensar o que aconteceu em 2018.

Cevasco diz mais. Inclui na “lógica coletiva” lacaniana a formalização dos laços sociais como discursos, investigando a construção de realidades e semblantes e onde a articulação significante produz uma amarração social ao mesmo tempo em que, como efeito de uma circulação e de uma produção de verdade, apresenta o sujeito do inconsciente. E também as fórmulas da sexuação, com a introdução do “não-todo” da lógica da sexuação feminina, que pode ser apresentada como um tipo de antídoto a toda política autoritária ou excludente. Haveria, portanto, uma economia de gozo que não exclui o “não-todo” da posição sexuada feminina, e que não pode ser coletivizada.

Pode-se avançar para questões-ferramentas como o tempo lógico (que é um tempo político, inserido no sistema de trocas), o instituto do cartel (onde o lugar do sujeito suposto saber não é ocupado), a implicação e a teoria da nomeação, com seus afetos de filiação e pertencimento. Além disso, há a linguagem, que marca o corpo, quebra-o em seu gozo, gerando as pulsões corporais e os afetos como habitante não só do discurso do Outro, mas também de um corpo que não domina, porque marcado por este Outro.

Dentro da clínica há o que talvez seja a questão mais nevrálgica e desafiadora no uso desse instrumental: caberia ao psicanalista correr o risco de deslocar-se? De sair da posição de sujeito da transferência para colocar-se na posição de um outro? Colocar em questão a opinião, esse bloco compacto de certezas, arriscando entrar em mera discussão política com o analisante? Não se trata de discordar politicamente ou questionar uma escolha dele, mas de questões que podem empobrecer a clínica. Por exemplo, silenciar quando um analisante fala com desprezo de uma certa sigla política ou líder, dando por subentendido que analista compartilha do mesmo critério, como se a relação analista-analisante fosse baseada na concordância e não na oferta do diverso, do não-todo? “Nutrir a ilusão de que a voz própria poderia se impor como se desse conta da totalidade”? (PUGET, 2016). Seria possível, diz Janine Puget, questionar ou pensar juntos como o analisante sustenta tal afirmação sem que isso pareça uma transgressão da tarefa que nos convoca? Evitar essa zona de conflito talvez empobreça a relação.

Ou quando o analisante relata que no almoço de domingo da família evitou-se o assunto política para que tudo corresse bem, ou que o jantar “acabou” quando o assunto foi política, ou quando ele briga com a namorada, um amigo, o chefe, por escolhas políticas discordantes que podem ter relação com questões como a origem social, de filiação ou de afetos intersubjetivos. Não são estas situações um tipo de mal estar? Devemos renunciar a essas investigações, e ainda assim sustentar o discurso do psicanalista?

Pois bem. Se há vínculos entre psicanálise e a política, o que fazer com tudo isso neste momento? Que caminhos surgem, que práticas merecem atenção, o que oferecer aos colegas como trama tecida no curto espaço de uma jornada de cartéis? Quero destacar o que, da psicanálise, me pareceu claramente aplicável agora: seu caráter contingente. Os coletivos que proliferam apoiados na tecnologia em movimentos de todo tipo, artísticos, educacionais, de ecologistas e políticos, se assemelham a uma estrutura de cartel inovadora na distribuição do suposto saber. A Análise Lacaniana do Discurso (ALD), apoiada em teóricos como Ian Parker e David Pavón-Cuellar, que difere de outras formas de análise de discurso porque não indica de modo preciso como se deve proceder ou quais os passos que devem ser seguidos para analisar materiais discursivos, que tem ocupado espaço cada vez mais amplo, embora aí haja uma inclusão na representação da academia, mas propondo ao acadêmico o movimento incerto. A ALD, também de forma contingente critica a psicologia institucionalizada das massas e promove a luta de classes no âmbito da análise do discurso.

A ascensão da tela e de seus gadgets, com a imposição de seu conceito de verdade e sua contingência implicada com o gozo, é uma variável relevante quando se pensa o estádio do espelho e a formação do sujeito contemporâneo. Notícias falsas, mas também a circulação da informação (mesmo mediada por algoritmos) são caminhos férteis para se entender e se propor um novo contexto ciborgue, pós-humano, talvez pós-corpo.

Pertencer ao laço social, porque ali se apresenta, mas não obedecer sua lógica de funcionamento, não estar incluído ou representado, porque o laço social é dominação, e o que se pretende com o discurso do analista é ser o avesso do domínio. Uma situação singular e sempre provocadora, mediada e ritmada pela contingência. É possível.

Referências:

BISPO, Fábio Santos. A Ética da Contingência. Curitiba: Editora Juruá. 2012.

CEVASCO, Rithée; CANO, German et al. Política do lo real – Nuevos movimientos sociales y subjetividad. Ediciones S&P, Barcelona, 2014.

PUGET, Janine. O lugar do político na prática vincular. Revista Brasileira de Psicanálise, volume 50, n3, pg. 133-142. 2016.

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